Emília Viotti da Costa

“Para historiadora, Brasil enfrenta o paradoxo de ser um país que reconhece o papel do escravo na construção da sociedade, mas que discrimina seus descendentes”(3/4/2000)

 

 Brancos e negros inventaram uma África, diz Viotti 

Nome: Emília Viotti da Costa 

                                                                                               Cargo: professora emérita de História da América Latina da Universidade de Yale (EUA), e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo)

                                                                                               Livros: "Da Senzala à Colônia" (Unesp), "Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue" (Companhia das Letras), entre outros

 

SYLVIA COLOMBO - Editora interina de Especiais

 

A historiadora Emília Viotti da Costa considera que, no Brasil, hoje, "invocar a tradição e a cultura tornou-se uma forma de resistência" diante do impacto da globalização. Para ela, as manifestações contra a comemoração dos 500 anos do Descobrimento "obrigam todos os brasileiros a repensar a história do passado e do presente de maneira a torná-la mais inclusiva.

 

“Estudiosa do tema da escravidão, Emília Viotti lecionou no Departamento de História da Universidade de São Paulo entre 64 e 69, quando foi aposentada pelo AI-5 (Ato Institucional do governo militar que endureceu o regime). Na ocasião, seguiu para os Estados Unidos, onde é professora emérita de história da América Latina na Universidade de Yale (EUA). Em 1999, Emília Viotti recebeu o título de professora emérita na USP.

 

É autora do livro "Da Senzala à Colônia", importante estudo sobre a transição do trabalho escravo para o livre na região cafeeira de São Paulo, e "Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue", sobre a rebelião dos escravos em Demerara, na Guiana Inglesa, no século 19 -em que analisa o fato histórico enfocando tanto a micro como a macro-história.

 

Leia abaixo os principais trechos da entrevista que Emília Viotti concedeu à Folha, por e-mail, de sua casa, nos EUA.

 

Folha - Recentemente, a sociedade portuguesa mobilizou-se pela causa de Timor Leste, tem acolhido relativamente bem a entrada de refugiados políticos de Angola, e a comemoração dos 500 anos do Brasil recebe a atenção dos órgãos responsáveis pela cultura naquele país. A sra. acredita que Portugal vê a efeméride dos Descobrimentos como oportunidade para se redimir dos danos causados pela colonização?

Emília Viotti - As relações entre Portugal e suas ex-colônias mudaram desde a queda de Salazar (1889-1970). Nada mais natural que tenha havido uma revisão do período colonial. Hoje, em toda a Europa, as relações entre as ex-metrópoles e colônias são distintas e há interesse de ambos os lados na construção de novos laços.

A criação do Mercado Comum Europeu tem exercido uma poderosa atração entre os povos das ex-colônias, provocando uma grande imigração com destino às antigas metrópoles.

Portugal oferece ao Brasil uma porta para a Comunidade Européia e o Brasil representa para Portugal um grande mercado. Isso leva, de forma inevitável, a um processo de reexame do passado. Se esse reexame levará à "conscientização histórica" de Portugal em relação aos danos causados pela colonização é o que veremos. Agora, a tendência é a reabilitação da idéia da comunidade de língua portuguesa, defendida no passado por Gilberto Freyre.

Folha - Como se dá, hoje, o processo de miscigenação e aculturamento dos povos negros na América Latina?

Viotti - Na América Latina, os negros foram introduzidos como produto da escravidão: Colômbia, Brasil, Cuba, Peru, México ou Argentina. Isso deixou marcas profundas nessas sociedades. Um dos seus legados mais sinistros foi o preconceito racial contra o negro, que até hoje persiste e dificulta sua integração na sociedade. As crises econômicas que afetaram o Brasil no século 20 e a política elitista, marcada frequentemente por um racismo disfarçado, contribuíram para que se mantivessem as desigualdades e alimentaram a discriminação.

Hoje, enfrentamos o paradoxo de um país que reconhece de várias maneiras a importância do negro na constituição da sua cultura e sociedade, mas que continua a discriminá-lo.

Folha - Como se mantém a identidade cultural africana, sobrevivente da diáspora causada pela escravidão, num cenário de globalização?

Viotti - O que se tem visto por toda parte é o que Hobsbawn chamou de "a invenção da tradição". Os povos africanos de origens diversas, que pertenceram no passado a grupos étnicos distintos, com culturas e religiões diversas, foram transportados para a América, onde foram transformados em escravos. No Novo Mundo, eles criaram aos poucos uma nova identidade, que transcendeu muitas vezes as diferenças étnicas que originalmente os dividiam.

Brancos e negros, cada um à sua maneira e por motivos diversos, inventaram uma África. Hoje, com as novas possibilidades oferecidas pela cultura de massa e pela mídia, multiplicaram-se os grupos que invocam a tradição africana. Invocar a tradição e a cultura tornou-se uma forma de resistência. Ultimamente se tem visto, por toda parte, um renovado interesse pela cultura.

Por toda parte, os grupos que se sentiram excluídos tentam criar um espaço próprio. Às tendências globalizadoras, que supostamente pretendem uniformizar a experiência humana, eles opõem suas "tradições". Dessa forma, globalização e multiculturalismo não se excluem. São os dois lados de uma mesma moeda.

Folha - Como a sra. vê as manifestações que repudiam a idéia de comemorar os 500 anos do Descobrimento do Brasil?

Viotti - Nos últimos anos, a indústria cultural tem promovido inúmeros eventos. Tudo é motivo para comemorações, congressos, publicação de livros. Os historiadores são os primeiros a ser chamados a dar sua contribuição.

Portanto, é de se esperar que os 500 anos da "descoberta do Brasil" sejam comemorados da mesma maneira como o foram a Abolição, a Proclamação da República e outras datas que têm sido consagradas como importante marcos da história nacional.

É muito significativo que vários grupos estejam se mobilizando para contestar a história oficial, que tem, quando muito, adotado uma atitude condescendente para com negros, índios, mulheres e outros grupos que se sentem excluídos dessa versão. Sua mobilização obriga todos os brasileiros a repensar a história do passado e do presente de maneira a torná-la mais inclusiva.

Folha - A América Latina teve, guardadas as especificidades regionais, um passado colonial comum e ciclos políticos semelhantes: liberalismo, populismo, ditaduras militares. A senhora acredita que esse destino comum é uma tendência que continuará existindo?

Viotti - De fato existem certos paralelismos interessantes na história dos países da América Latina, mas há também importantes diferenças. Isso significa que, apesar de terem partilhado uma posição semelhante no mercado internacional, suas peculiaridades ecológicas, demográficas, seus diferentes recursos naturais e graus de desenvolvimento, suas várias culturas imprimiram um curso diverso a sua história política.

Como já tive ocasião de afirmar várias vezes, os agentes históricos não são apenas produtos de uma história que já está predeterminada, mas são agentes de uma história que, ao mesmo tempo, os produz e é produzida por eles.

Se não fosse assim, como seria possível explicar a existência até hoje de uma Cuba socialista? Como explicar revoluções que abalaram a América Central nos anos 70/80 na Nicarágua, El Salvador e Guatemala, depois da onda de repressão que desabou sobre a América do Sul nos anos 60/70?

Uma abordagem economicista e mecanicista leva a políticas equivocadas. Quando se imagina que a história já está predeterminada, perdem-se de vista os caminhos possíveis. Isso leva a um conformismo e a uma passividade perigosa. Tão perigosa quanto a visão voluntarista oposta, que privilegia os agentes históricos e ignora as forças que impõem limitações a sua vontade de ação.

A idéia de que a história da América Latina passou por estágios sucessivos -e que agora se encaminha para a social-democracia- tem sido corretamente contestada pelos historiadores, que apontam para as recorrências históricas de ditaduras militares e civis, de táticas populistas ou ainda de práticas discursivas liberais.