HAYDÉ VIOTTI NOGUEIRA DE SÁ

 

Texto escrito pelo seu filho mais novo Octavio Fernando Lusvarghi

 

Figura impoluta, caráter sem jaça, minha mãe nasceu em 13 de junho de 1899 em São Bento do Sapucaí-SP e foi registrada no Cartório de Luminosa-MG, um distrito de Brasópolis-MG.

    Ela nasceu numa fazenda de propriedade do pai dela, situada próximo à famosa Pedra do Baú, região geográfica de Campos do Jordão-SP, recebeu o batismo em 25/12/1900 na Paróquia de São Bento do Sapucaí, bispado de Taubaté, pela mãos do vigário Francisco Reale, tendo sido padrinhos Francisco das Chagas Esteves Salgado e Anna Bernardes de Farias.

    Foi levada a estudar interna na então Escola Normal de Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas, onde estudou piano, canto, pintura, francês, trabalhos manuais, boas maneiras e, ainda, saiu formada professora normalista, como chamavam naquele tempo a professora de escola de primeiro grau.

    Ela era alegre, inteligente, expansiva e, entre outras coisas, contava que, uma vez, na estação ferroviária da antiga Silvestre Ferraz, aguardava a chegada do já atrasado comboio que a levaria para casa. Quando o trem apontou na curva, alguém perguntou o que significava aquela inscrição MCMX, colocada no alto do prédio da estação. Um gaiato por perto logo asseverou: -"Muito Custou Mas Xegou".

    Casou-se com Paulo Lusvarghi em 08/02/1923 em Jacutinga-MG, ocasião em que continuou a assinar Haydée Viotti Nogueira de Sá, embora nos meus documentos conste apenas Haydee Nogueira Lusvarghi.

    Era uma mulher prendada, letrada, chique mas sem ostentação, que enfrentou com galhardia e sucesso os desafios da vida de esposa de um cidadão dinâmico, enérgico, pioneiro e empreendedor, que procurava estar sempre nos locais mais longínquos da civilização daqueles tempos para "fazer a vida", como diziam na época.

    Não era muito amorosa, nem se desmanchava em carinhos, mas cuidou com extremo zelo e firmeza do marido e dos oito filhos que teve, e ainda encontrava tempo para dar guarida a concunhada, sobrinhos e sobrinhas que vinham de locais de menos recursos em busca de estudos e melhores oportunidades na vida, ou egressos de acidentes ou viuvez recente. Estava sempre disposta a praticar o bem sem ver a quem e ainda achava tempo para fazer suas pinturas, tocar e compor ao piano.

    Seu irmão mais velho, Gentil Nogueira de Sá Filho, o "Tizinho", mais um seu irmão de criação, Rosalino Silva, o "Rosa", participaram da revolução constitucionalista de 1932, como voluntários, a favor de São Paulo; Tizinho regressou depois para Minas Gerais, mas o Rosa tombou no front de batalha. Hoje, há uma via pública, em Lins-SP, com o nome dele, Avenida Voluntário Rosalino Silva.

    Haydée não se poupou sequer quando, já sexagenária, seguiu seu marido que decidira mudar-se para Mato Grosso e, morando em verdadeiras choupanas, manteve-se a seu lado enfrentando as peripécias a que se vê exposta toda pessoa que se embrenha no sertão abrindo fazenda, tais como deparar-se com serpentes venenosas sobre a cama de dormir, mosquitos transmissores de malária, etc.

    Era filha de Gentil Nogueira de Sá e Thereza Nogueira Viotti e mantinha o perfil de mulher prendada dos Nogueira de Sá, aliado à nobreza de estilo dos Viotti.

    Faleceu, viúva, em 06/02/1982, no Rio de Janeiro, em casa da filha Lucia que a sepultou no cemitério de São João Batista.

    Era uma mulher rigorosa e severa. Sou seu filho caçula e ela nunca me deixou "pular" em seu colo e beijar sua face. Afastava-me com veemência. Era de muita fibra e vigorosa, face rosada. Dizia que era porque fora criada no ar das montanhas com a famosa cozinha mineira, muito leite e meio copo de vinho à refeição. Seu próprio pai fazia os vinhos de diversas frutas.

    Essa era dona Haydée. Inesquecível. Majestosa. Inquebrantável. Essa era minha mãe querida.