SERGIO VIOTTI

 

Eu nasci em São Paulo e vim para o Rio de Janeiro em 1945, para fazer o Itamarati. Depois encontrei pessoas de teatro - graças a Deus! - e elas me colocaram na ativa. Eu era muito amigo de Heitor Helimonda, e, através do Heitor, eu conheci muitos músicos. Conheci o Edino Krieger, o Guerra-Peixe, Koellreutter, Ilara Gomes Grosso, Iberê, conheci aquela turma toda. E todos eles tocavam na Rádio MEC. René Cavé tomava conta deles todos e também da gente de teatro. O Rêne era um homem encantador.

Eu estudei piano até os 14 anos de idade, e sei ler música. Então, quando os meus amigos músicos iam dar concerto na Rádio MEC, eu ia junto para virar a página - ainda era naquele estúdio que não existe mais, depois a Rádio fez um outro, compridão. Eu tinha dezessete anos e achava isto uma coisa fora do comum. Imagina: eu, Sérgio Viotti, na Rádio MEC, virando página para Heitor, para Maria Abreu, pra Laís de Souza Brasil, entende? Eu ficava louco! Eu nunca pensei que fosse trabalhar em rádio, mas surgiu a possibilidade de ir para a BBC, e, eu não tive duvida: fiz correndo meus exames de admissão, esperei um ano e fui para a Inglaterra, onde fiz rádio na BBC durante quase nove anos. Aí voltei para o Brasil, para São Paulo, onde tinham acabado de fundar a Rádio Eldorado. E eu achava que, voltando para o Brasil, nunca ia fazer rádio, porque o rádio que eu fazia na BBC não tinha nada a ver com o rádio comercial. A Rádio MEC tinha um elenco fixo de radio teatro, e eu conhecia o diretor da rádio, que na época era o Avelino Henrique, no tempo do Passarinho. Um dia ele me telefona, e diz: - Escuta aqui, eu tenho este elenco. A gente não podia usar para fazer rádioteatro? Como eu morava em São Paulo e trabalhava na TV 2 , passei a vir ao Rio de 15 em 15 dias, numa segunda-feira. E a cada segunda-feira a gente gravava duas peças. Graças a deus eram todos bons atores. O Zé (Magalhães Graça) eu conheci a vida inteira, porque o Zé era um extraordinário pianista e a gente estava sempre junto. Ele era muito bom ator e trabalhava como ator em teatro. Acabou desistindo da sua carreira como pianista, porque ele tinha pânico de público. Ele podia sentar aqui com a gente e tocar piano horas a fio, se ele entrasse num teatro ele esquecia... A Agnes Fontoura também era uma pessoa maravilhosa, uma atriz esplêndida. E a grande maioria dublava o que dá uma tarimba enorme. Então eles recebiam a peça com antecedência e eu chegava lá na segunda, fazíamos uma leitura, fazíamos uma 2º leitura e gravávamos. E esse era o processo de criação das peças. Se fosse uma coisa muito complicada: mais uma leitura. Naquela época, a Rádio não tinha um estúdio próprio para rádioteatro, não. A gente tinha que se virar, porque não tinha muita coisa, não. Para fazer uma porta que abre e fecha, era uma coisa complicadíssima. Até para conseguir uma maçaneta era complicado. Para nós conseguirmos um caixote de madeira com areia e umas pedras dentro, para fazer passadas ao ar livre, era difícil. Mas nós acabávamos conseguindo: a gente conseguia tudo. É verdade também que eu nunca tentei fazer peças extremamente complicadas do ponto de vista de produção, porque a gente também não tinha muito tempo. Em 72, o Avelino teve um problema. Alguém ia sair e, por acaso, nesta época eu tinha saído da televisão e queria voltar a fazer teatro aqui, no Rio, e não tinha aquele compromisso de estar em São Paulo e vir ao Rio. Aí o Avelino disse: “Por favor, venha ser diretor artístico da Rádio, comigo".

Como eu trabalhava em rádio desde 58, e aquilo não tinha nenhum segredo para mim, eu aceitei. Mas as condições eram as piores possíveis e imagináveis! Você tinha a impressão de que era o Titanic depois que afundou! Basta dizer que havia um corredor com toda a biblioteca empilhada num canto, havia janelas com cortinas e livros empilhados atrás das cortinas - não me pergunte por que! - eles estavam usando o local da biblioteca para outra coisa. A discoteca era praticamente inexistente... Sabe quantos funcionários eu tinha? 62 !!! 62 produtores!! e tinha duas máquinas de escrever. E um dos meus funcionários era Carlos Drumond de Andrade! Um dia eu entrei na Rádio e vi o Carlos chegando e abrindo o livro de ponto, e fiquei desorientado e perguntei o que ele estava fazendo ali. Ele responde: “Eu vim assinar o livro de ponto.”

E eu digo: "O que?! Você vem aqui para assinar o livro de ponto? Primeiro, nós é que devíamos levar o livro para a sua casa, ficar de joelhos para você assinar, e pagar a você por cada autógrafo! E nunca mais apareça aqui! E você não vai perder o emprego, não." Coisas do Brasil, né? Existe um ditado na Inglaterra, que diz: "Se você jamais foi um homem da BBC, você sempre será um homem da BBC", quer dizer, é um estigma, uma coisa que fica gravada a fogo na sua pele. Eu acredito que, para quem gosta da Rádio MEC, para quem a Rádio MEC significou ou significa alguma coisa - quer você goste como funcionário, quer você goste como ouvinte, é igual. “Uma vez amante da Rádio MEC, para sempre amante da Rádio MEC.”

 

(Depoimento gravado e transcrito por Murillo Saroldi, com a colaboração de Livia Rosa)

 

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