Santa Rosa

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SANTA ROSA 

 

Texto de Eduardo Afonso

 

Com eles nossas historias tem vida

 

Amanhece.
Rabinha ardente, café forte, puro e quente, direto do fogão de lenha trincado, enfumaçado e com a chami
né coberta de picumã para a garrafa com rolha de palha de milho. Dali para o embornal, iluminado pelos primeiros raios, que deslizando pelas frestas das telhas de barro, mostram para a lamparina quem é mais forte ali.

 

Prepara a tralha num velho ritual. Primeiro enxada, enxadão e pá; picareta, canivete e facão. Depois, chicote, marmita, polainas e a expressão de satisfação por ter lembrado algo importante que já ia esquecendo.


Arrastando pelo assoalho seu barulhento par de esporas, cantarolando “Saudade do Matão”, vai ele ao encontro de seu surrado, empoeirado chapéu de feltro, de belas memórias e tantas histórias, pendurado no mourão esquerdo da porta do velho casarão.


Arreia Pampinha, Sabiá e Andorinha – esta última, égua esbelta e companheira, que por saber do trabalho do dia seguinte, havia dormido bem pertinho, no pastinho.
E eu, ali, menino, nos olhos ainda remela denunciando que tinha ainda muito para dormir na gostosa cama de colchão de capim, travesseiro de paina, colcha de tear e lençol limpinho, feito de saco de algodão.


Restou para minha montaria o velho pangaré Bainho, cavalo amigo dos meninos , que quase sempre não tinham direito de escolha.


Chama Revolta, a cadela fila de grandes ninhadas. Foi ela que protagonizou uma das cenas mais lindas da minha infância.


Era uma tarde de chuva. Chuva intensa, de pedra e água – velhas árvores tombando com a força do vento, assustando até os adultos mais experientes, que corriam fechando janelas e portas, cobrindo o velho espelho da cristaleira da sala, que poderia atrair raios – crença daquela antiga gente. O menino, da varanda, observa o espetáculo da natureza. Em meio à cortina de chuva e trovões, um vulto vindo do quintal chama atenção. O menino atento tudo acompanha: é ela, Revolta, a cadela amiga, guardiã de crianças e adultos que estava desaparecida desde o dia anterior. Pula o rego d’água, que naquele momento mais parecia o rio, que dia e noite abastecia o incansável carneiro responsável pelo fornecimento de água à sede da fazenda. Apesar da tempestade se ouvia o inconfundível e, hoje, saudoso toc-toc-toc daquela máquina simples – genial invenção do homem.


Lá vem a cadela rajada, molhada, olhar fixo e passos firmes para seu último obstáculo até o porão do velho casarão. Passa por baixo da cerca e entra trazendo na boca um pequeno filhote, frágil, molhado, de olhos fechados, que acabara de nascer.
Revolta pariu! Grita o menino com o coração saindo pela boca. Seria somente um ou teria outras crias na chuva a espera da mãe? Lá vai a cadela de volta ao fundo do quintal em busca de sua ninhada: uma, duas, três, quatro, cinco vezes sempre trazendo com todo carinho, dentro daquela imensa boca – terror dos tatus daquela redondeza – o filhote pequenino.


Era inacreditável tudo aquilo que via o menino, seu coração batia forte e rápido. Para cada batida do carneiro, duas batidas do coração.


Assim o tempo foi passando- toc, tum-tum, toc, tum-tum-, a chuva diminuindo e a cadela trazendo o último dos seus nove filhotes.


Passada a chuva, lá estava o menino, pertinho da ninhada, com o coração já batendo em harmonia com o carneiro, admirando a mãe e suas crias. Sentindo o cheiro da ninhada, aquela em especial, com tempero e sabor de chuva, toda rajada, lambida, aquecida pela língua da mãe de peitos cheios, que pelo olhar e o abanar do rabo se gabava do feito; ter parido e salvado cada um dos filhotes, que haviam nascido horas antes em uma toca que ela mesmo fizera lá no esbarrancado do fundo do pomar, bem ao lado do bambuzal.

 

Céu azul, lua minguante se pondo e o sol se fazendo ver. Ajuda o menino a subir em bainho, puxa Andorinha e os outros cavalos com toda tralha para fora do curral, bate a porteira e inicia a cavalgada até o local previsto para o trabalho, onde peões já aguardavam para o início da obra: um novo rego d’água para abastecer a fazenda.
Logo depois já se ouvia os latidos de Revolta que, como sempre, havia chegado primeiro.
Apeou, desceu toda a tralha e saiu rumo à nascente do riacho, já estudando qual seria o melhor lugar para tirar água e iniciar o rego, que iria abastecer a fazenda e matar a sede da criação.


As coisas para ele aconteciam com a maior naturalidade. Tinha o conhecimento, o saber adquirido ao longo da vida – aprendizado conseguido não em banco de escola ou universidade, mas no dia-a-dia, no contato com a natureza, observando-a, respeitando-a .


Você já imaginou ter os pássaros como professores, dizia ele para espanto e curiosidade do menino. Tente fazer da natureza sua mestra, observe-a, você só terá muito o que aprender.


Como era bonito e interessante ver um matuto com pensamento de sábio, que conseguia estar a frente de tantos outros muito mais educados que ele.
Buscou o ponto mais alto da nascente. Água pura, cristalina. Água boa primeiro tem que matar a vontade, depois a sede, dizia ele. Cortou algumas varas de coivara e começou a demarcar o caminho a ser percorrido pelo novo rego, tomando o cuidado de não cortar nenhuma árvore, entre elas um magnífico ipê amarelo que contrastava com o azul do céu.


Demarcou a gameleira, bem ao lado da sede, como ponto final do rego d’água. Daí pra frente a natureza daria as ordens, ela demarcaria o curso a ser percorrido. O destino, com certeza, seria o rio, depois o mar.


Foi dada a partida, só se ouvia o barulho das enxadas e enxadões. Poeira levantando, braços se agitando, suor escorrendo. Lá no fundo do brejo, no final do dia, se ouvia os “passu preto” se alojando, a saracura cantando “quebrei três potes, quebrei três potes”.


Era a hora de parar, descansar, para recomeçar, no outro dia, o trabalho. Diversos dias e o mesmo ritual. O rego estava praticamente pronto, agora era encabeçar e ver a água correr, torcendo para que tudo desse certo.


Era serviço para todos os homens: enxada vai, enxada vem e a água começa a tomar a direção certa.


Lá vem ela, com toda força, abrindo caminho, quebrando torrões e fazendo da poeira barro.


Alegria geral, passarinhos cantando, dando boas-vindas. Olha o arrastão, diz ele, com cara de felicidade e de missão cumprida.


Lá vai a corredeira, arrastando tudo, apagando poeira. É folha, é força, é água, é cheiro de terra molhada. Amanhã, lodo, verde, vida...quem sabe uma lágrima.
Corre o menino ao lado do rego, tentando em vão acompanhar, emocionado, aquela evolução. Segue a água, levantando poeira, trazendo o verde, levando esperança, fazendo pulsar forte o coração daquela criança. Salta o menino de calças curtas, tropicando, com sua apertada botina mateira, com certeza herdada de algum primo mais abastado e do pé bem menor, sem saber que o destino de todo menino é crescer, virar homem e o destino de todo homem é trazer consigo histórias daquele menino.


Segue o rego, segue em frente, levando água corrente e com ela vida, paz e semente. Com ele, o outono terá folhas, o inverno verde e a primavera flores.
O rego está pronto. Amanhã será bica, riacho, ribeirão. Depois da gameleira, seguirá sozinho, mais que corredeira será cachoeira e, um dia, mar.

 

O tempo passou. O rego d’água virou mar. O professor que aprendia com os natureza, se foi. Hoje é terra, é água, é raiz, é imensidão, mais do que isso – é passarinho!
Ainda me lembro dos seus conselhos e sinto bem forte o seu cheiro. Não cheiro de gente moderna, lavada com lavanda e perfume. Não, nada disso... o povo de antigamente era gente que tinha cheiro de terra – terra plantada, semeada, molhada – abençoada!


Junto com os passarinhos continuo, ainda hoje, aprendendo com ele. 
Por encanto, canto. Não como eles, mas como os poetas. E o que cantam os poetas?

 

“ Os tios guardam segredos, cuidam da nossa criança.

Com eles nossas histórias têm vida, brincam na nossa lembrança.

Lá se vão os tios, com eles a nossa infância.” 

 

Eduardo Afonso